A pólis espiritual: lições gregas para a liderança profética na Igreja Adventista

Introdução
A busca da ordem é um empreendimento humano perene, e a antiga pólis grega é uma de suas expressões mais notáveis. Mais que uma cidade-Estado, a pólis foi um experimento abrangente de autogoverno comunitário: um espaço em que os cidadãos debatiam a justiça, cultivavam a virtude e procuravam organizar a vida coletiva segundo princípios racionais. Foi, nas palavras de Jean-Pierre Vernant, o crisol em que se forjou o pensamento político ocidental, o contexto em que a mente humana enfrentou pela primeira vez, de modo sistemático, a pergunta sobre como uma comunidade deve governar a si mesma.¹
Para a Igreja Adventista do Sétimo Dia — um movimento mundial com sistema representativo de governo, identidade profética e missão escatológica —, a sabedoria da pólis não é uma curiosidade histórica, mas uma fonte de perguntas penetrantes. Como uma comunidade de fé deve organizar sua vida coletiva? Qual é a relação entre o caráter de seus membros e a saúde de suas instituições? O que acontece quando estruturas concebidas para servir ao propósito de uma comunidade passam a servir a si mesmas? E quais são os limites da razão humana na busca da ordem divina? Este ensaio explora essas perguntas acompanhando a trajetória do pensamento político grego dos pré-socráticos a Aristóteles e pondo as intuições da pólis em diálogo com os desafios eclesiológicos e missiológicos que a Igreja Adventista enfrenta hoje.
1. A pólis grega: anatomia de uma comunidade autogovernada
O que era a pólis?
A pólis era a unidade fundamental da vida política grega: uma comunidade autogovernada que em geral abrangia uma cidade e seu território circundante, unida por leis, costumes, práticas religiosas e uma identidade comuns. Ao contrário dos impérios do antigo Oriente Próximo, onde a autoridade descia de um soberano, a pólis — ao menos em sua forma democrática — distribuía a responsabilidade política entre os cidadãos, dos quais se esperava participação direta no governo, na defesa militar e na deliberação pública.²
O abrangente estudo de Mogens Herman Hansen sobre a instituição mostrou que a pólis existiu em extraordinária variedade: mais de mil cidades-Estado estão atestadas no mundo grego, cada uma com seus próprios arranjos constitucionais, da democracia radical à oligarquia restrita.³ O que as unia não era uma forma política única, mas a convicção compartilhada de que o ser humano alcança seu desenvolvimento mais pleno não no isolamento, mas na participação ativa na vida comunitária — convicção que Aristóteles formalizaria mais tarde em sua célebre afirmação de que o ser humano é, por natureza, um zoon politikon, um “animal político”.⁴
A ágora: espaço de deliberação
No coração da pólis estava a ágora — a praça pública que servia ao mesmo tempo de mercado, centro cívico e fórum de deliberação política. Ali os cidadãos se reuniam para debater propostas de lei, ouvir causas judiciais, tratar de questões de guerra e paz e praticar o tipo de discurso aberto, face a face, que os gregos consideravam a essência da vida política.⁵ A ágora simbolizava a convicção de que o governo legítimo exige diálogo genuíno: as decisões que afetam a comunidade devem nascer de um processo de raciocínio coletivo, e não do decreto de um indivíduo ou da manipulação de uma facção.
Para a Igreja Adventista, o princípio encarnado na ágora levanta uma pergunta incisiva: nossas reuniões institucionais — comissões diretivas, sessões de comissões, assembleias de constituintes — funcionam como verdadeiros espaços de deliberação, onde vozes diversas são ouvidas e as decisões são alcançadas por meio de discernimento em oração? Ou tornaram-se encenações ritualizadas, dominadas por pautas pré-definidas, formalidades processuais e pelas dinâmicas do poder institucional? A saúde de qualquer sistema representativo depende da autenticidade de seus processos deliberativos.
Atenas e Esparta: duas visões da ordem
A diversidade da pólis grega é ilustrada de forma mais dramática pelo contraste entre Atenas e Esparta, duas comunidades que encarnaram visões radicalmente distintas de como organizar a vida coletiva. Atenas defendia a liberdade individual, a investigação intelectual, a expressão artística e a participação direta dos cidadãos no governo. Seu compromisso com o debate aberto e a investigação filosófica criou as condições para que Sócrates, Platão e Aristóteles florescessem.⁶ Esparta, ao contrário, priorizava a disciplina militar, a obediência coletiva e a subordinação da expressão individual às necessidades do Estado. Seus cidadãos eram formados desde a infância para a guerra, e suas instituições foram concebidas para produzir uniformidade, resistência e lealdade inquestionável.⁷
Ambos os modelos tinham forças e fraquezas fatais. A abertura ateniense podia degenerar em facção, demagogia e tirania da maioria — como o julgamento de Sócrates demonstrou de forma catastrófica. A disciplina espartana produziu extraordinária coesão militar, mas ao custo de estagnação intelectual, empobrecimento cultural e supressão brutal da consciência individual. Para a Igreja Adventista, essa antiga dialética continua instrutiva: uma comunidade que valoriza apenas a liberdade corre o risco de fragmentar-se; uma comunidade que valoriza apenas a ordem corre o risco de enrijecer-se. O desafio é manter ambas em tensão criativa — tensão que o sistema representativo adventista, em sua melhor expressão, foi concebido para sustentar.⁸
2. Do mito à filosofia: o despertar da investigação racional
Os pré-socráticos e a busca de uma ordem universal
Antes das grandes figuras do período clássico, os filósofos pré-socráticos iniciaram uma revolução na consciência humana. Pensadores como Tales, Anaximandro, Heráclito e Parmênides foram além das explicações mitológicas do cosmos e buscaram princípios racionais — o que chamaram de archē (origem, princípio) e logos (razão, ordem) — para explicar a estrutura da realidade.⁹ Suas investigações lançaram o fundamento intelectual de uma civilização que valorizaria o argumento racional, a observação empírica e a reflexão sistemática como caminhos para a verdade.
Eric Voegelin interpretou esse despertar filosófico como um dos grandes “saltos no ser” da história humana — uma irrupção em que a consciência humana passou do simbolismo “compacto” do mito ao simbolismo “diferenciado” da razão filosófica, alcançando nova clareza sobre a estrutura da realidade e o lugar do ser humano nela.¹⁰ Essa irrupção não aboliu a experiência do sagrado; transformou-a, deslocando o fundamento da ordem da narrativa mitológica para a experiência direta da participação da alma na realidade transcendente.
Sócrates e o exame da alma
Sócrates — que nada escreveu, mas tudo transformou — deslocou o centro da investigação filosófica do cosmos para a alma humana. Sua célebre máxima de que “a vida sem exame não vale a pena ser vivida” não era um convite à autocomplacência intelectual, mas um imperativo moral: a virtude genuína, argumentava ele, é impossível sem autoconhecimento, e o bem-estar da pólis depende da integridade moral de seus cidadãos.¹¹
Por meio de seu método de questionamento implacável — o élenkhos —, Sócrates expôs os pressupostos não examinados, as contradições ocultas e as ilusões confortáveis que passavam por conhecimento na vida pública ateniense. Foi, no sentido mais profundo, uma figura profética: alguém que chamou sua comunidade a um padrão que ela preferia não encarar. Sua execução foi a resposta da pólis ao profeta — resposta que se repetiu, de várias formas, ao longo da história humana.¹²
Platão: a justiça como ordem da alma
Platão, forjado pela crise da morte de Sócrates e pelo colapso da ordem política ateniense, buscou uma forma de justiça que não pudesse ser subvertida pela opinião popular nem pela manipulação política. Na República, argumentou que a justiça na cidade é reflexo da justiça na alma individual — uma ordenação harmônica de razão, ânimo e apetite — e que a reforma política genuína é impossível sem a reforma prévia das almas que compõem a comunidade.¹³
O rei-filósofo de Platão — o governante que subiu da caverna da ilusão, apreendeu a Forma do Bem e voltou para governar — não é um tirano, mas um servo da verdade, cuja autoridade não deriva do poder, mas da sabedoria e da integridade moral.¹⁴ Voegelin leu essa figura como essencialmente profética: um mediador entre a verdade transcendente e a ordem imanente da sociedade histórica, cuja vocação é chamar a comunidade a alinhar-se com uma realidade que excede sua compreensão atual.¹⁵
Aristóteles: florescer em comunidade
Aristóteles, embora profundamente devedor de Platão, adotou uma abordagem mais empírica. Em vez de construir um Estado ideal a partir de princípios abstratos, estudou as constituições das póleis existentes para compreender que formas de governo de fato promoviam o florescimento humano.¹⁶ Sua convicção central — a de que o propósito da pólis não é apenas garantir a sobrevivência, mas permitir que os cidadãos “vivam bem” (eu zēn), alcançando a eudaimonia (florescimento) pela prática da virtude — permanece uma das mais poderosas formulações do propósito político na tradição ocidental.¹⁷
Para Aristóteles, esse florescimento é alcançado pelo cultivo das virtudes — disposições estáveis do caráter adquiridas pela prática reiterada — e orientado pela phronesis, a sabedoria prática: a capacidade de discernir o curso de ação correto em situações concretas.¹⁸ A pólis bem governada não é a regida apenas por leis rígidas, mas aquela em que líderes dotados de sabedoria prática tomam decisões justas, atentas às particularidades de cada situação — uma visão de governo que desafia toda comunidade, inclusive a Igreja Adventista, a valorizar o discernimento tanto quanto o procedimento.
3. Perguntas proféticas à Igreja Adventista
A sabedoria da pólis — sua ênfase na participação cívica, no cultivo da virtude, na primazia do bem comum e no papel essencial da deliberação genuína — obriga a Igreja Adventista a fazer perguntas incisivas sobre sua própria vida institucional.
A estrutura serve à missão?
A estrutura organizacional da Igreja Adventista — seu sistema representativo de quatro níveis, seus processos de constituintes, seus regulamentos — foi estabelecida para servir à missão escatológica da igreja: a proclamação do evangelho eterno e o preparo de um povo para a volta de Cristo.¹⁹ Mas as estruturas, uma vez criadas, desenvolvem uma dinâmica própria. Geram públicos cativos, criam carreiras, acumulam recursos e desenvolvem interesses institucionais que podem ou não estar alinhados com seu propósito original. A observação penetrante de Howard Snyder continua indispensável: quando as estruturas eclesiásticas se tornam fins em si mesmas, em vez de meios para o avanço do reino de Deus, encarnam uma heresia prática em forma institucional.²⁰
A pergunta precisa ser feita de modo contínuo e concreto: cada nível de nossa estrutura organizacional realmente fortalece a missão, ou serve principalmente para perpetuar a si mesmo? Não é uma pergunta revolucionária; é uma pergunta conservadora — um chamado a devolver as estruturas a seu propósito original.
Formamos discípulos ou administramos recursos?
Sócrates e Platão puseram a formação da alma no centro de todo governo autêntico. Para a Igreja Adventista, o paralelo é o discipulado — a formação de pessoas cuja vida é progressivamente moldada pelo caráter de Cristo. Contudo, numa organização mundial complexa, com considerável infraestrutura institucional, há a tentação persistente de substituir a obra mais profunda da formação espiritual pela administração de recursos — supervisão financeira, manutenção patrimonial, relatórios estatísticos.²¹ Ambas são necessárias; mas, quando a segunda desloca a primeira, a igreja perdeu seu centro. A advertência de Ellen White continua pertinente: “É de temer uma religião formal; pois nela não há Salvador.”²²
Nossas reuniões são espaços de discernimento?
A ágora era um espaço de deliberação genuína — onde os cidadãos raciocinavam juntos, ponderavam alternativas e chegavam a decisões pelo exercício do juízo coletivo. As reuniões da igreja, das comissões locais às comissões da Associação Geral, devem ser espaços análogos — fóruns de deliberação em oração, discernimento espiritual e busca comunitária da vontade de Deus.²³ Quando se degeneram em rituais processuais — dominados por pautas predeterminadas, manobras regimentais e pelas dinâmicas da política institucional —, o coração deliberativo do sistema representativo fica comprometido. Recuperar a deliberação genuína exige não apenas reforma estrutural, mas transformação cultural: um compromisso de toda a comunidade com a prática de ouvir — uns aos outros, a Escritura e o Espírito.
Cultivamos a virtude ou a sobrevivência institucional?
Aristóteles argumentava que a pólis existe para que seus cidadãos vivam virtuosamente. A Igreja Adventista, como pólis espiritual, é chamada a cultivar as virtudes de Cristo em seus membros e líderes — integridade, humildade, compaixão, coragem, fidelidade. Mas as pressões institucionais podem desviar a energia para a sobrevivência: proteger a reputação, administrar crises, manter as estatísticas de membresia e preservar os arranjos de poder existentes.²⁴ Quando a sobrevivência institucional se torna a prioridade operante — ainda que inconscientemente —, a igreja trocou sua vocação profética pela autopreservação organizacional. O cultivo da virtude, pessoal e comunitária, é a única salvaguarda contra esse deslocamento.
4. Os limites da razão e a necessidade da revelação
A tradição filosófica grega alcançou intuições extraordinárias sobre a natureza da justiça, da virtude e da ordem comunitária. Mas também encontrou — e reconheceu com honestidade — os limites da razão humana. A Forma do Bem de Platão, fonte última da verdade e da realidade, permaneceu em parte inefável: podia ser aproximada pela dialética, mas nunca plenamente captada em linguagem proposicional.²⁵ Aristóteles, com todo o seu rigor empírico, reconheceu que a sabedoria prática exige uma espécie de percepção que transcende a lógica dedutiva.²⁶
Para a Igreja Adventista, esse reconhecimento dos limites da razão não é uma concessão, mas uma libertação. A igreja afirma que sua fonte última de ordem não é a investigação filosófica humana, por mais valiosa que seja, mas a revelação divina — a autorrevelação de Deus na Escritura, iluminada pelo Espírito de Profecia e aplicada pelo Espírito Santo à vida e à missão da comunidade.²⁷ A sabedoria da pólis pode aguçar nossas perguntas, refinar nossas categorias e desafiar nossas acomodações institucionais. Mas não pode oferecer a visão escatológica, o mandato profético nem a graça transformadora que constituem a identidade distintiva da igreja.
Ellen White expressou essa convicção com sua franqueza característica: “A igreja é o instrumento apontado por Deus para a salvação dos homens. Foi organizada para servir, e sua missão é levar o evangelho ao mundo.”²⁸ Essa definição — a igreja organizada para o serviço e orientada para a missão — estabelece um critério que transcende qualquer referencial filosófico: as estruturas da igreja, sua liderança e sua vida comunitária só se justificam na medida em que servem ao propósito redentor para o qual a igreja foi chamada à existência.
Conclusão
A antiga pólis grega — com seu compromisso com a participação cívica, seu cultivo da virtude, seus experimentos de governo e sua busca filosófica da justiça — oferece à Igreja Adventista um espelho de notável clareza. Ela não fornece uma planta baixa; fornece um conjunto de perguntas que toda comunidade comprometida com um governo autêntico precisa fazer continuamente. Nossas estruturas servem à nossa missão? Formamos pessoas de caráter ou apenas administramos processos institucionais? Nossas reuniões deliberativas encarnam discernimento genuíno? E buscamos o bem comum ou apenas a sobrevivência institucional?
Essas perguntas, aguçadas pelas intuições de Sócrates, Platão, Aristóteles e seus intérpretes modernos, não são estranhas à tradição adventista. São, na verdade, profundamente compatíveis com as próprias convicções da igreja sobre governo representativo, liderança profética e a formação de um povo preparado para o reino vindouro. A pólis realizou muito pelo exercício da razão; a igreja é chamada a realizar mais pela integração da razão com a revelação, da sabedoria filosófica com o discernimento profético, da excelência institucional com a fidelidade escatológica.
Que a Igreja Adventista seja uma pólis espiritual digna de seu chamado — uma comunidade onde as estruturas sirvam à missão, os líderes encarnem a virtude, a deliberação reflita a orientação do Espírito e cada membro participe ativamente da proclamação da ordem divina a um mundo que dela necessita desesperadamente.
Perguntas para reflexão
Estamos promovendo virtude cívica genuína e crescimento espiritual em nossas comunidades de igreja, ou nos contentamos com participação institucional sem transformação pessoal?
Nossas estruturas organizacionais realmente fortalecem nossa missão escatológica, ou às vezes a impedem ao priorizar a autopreservação?
Como garantir que nossas decisões coletivas sejam guiadas tanto pela razão sã quanto pela revelação divina — honrando as melhores intuições da sabedoria humana sem deixar de estar ancorados na autoridade da Escritura?
Que passos concretos cada um de nós pode dar para encarnar os ideais de uma pólis espiritual — uma comunidade de virtude, discernimento e testemunho profético — em nossa congregação local?
Referências
¹ Jean-Pierre Vernant, The Origins of Greek Thought (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1982), 49–68. A análise de Vernant sobre o surgimento do pensamento político racional na Grécia antiga — especificamente a transição dos modos mitológicos para os modos filosóficos de compreensão — continua sendo um dos relatos mais influentes de como a pólis criou as condições para a tradição intelectual do Ocidente.
² Mogens Herman Hansen, Polis: An Introduction to the Ancient Greek City-State (Oxford: Oxford University Press, 2006), 56–73. O estudo de Hansen, baseado no inventário do Copenhagen Polis Centre de mais de 1.000 póleis atestadas, oferece a análise contemporânea mais autorizada da estrutura, da diversidade e do significado da instituição.
³ Hansen, Polis, 1–12.
⁴ Aristóteles, Política I.2, 1253a2–3; ed. de referência: Aristotle, Politics, trad. C. D. C. Reeve (Indianápolis: Hackett Publishing Company, 1998). A afirmação de Aristóteles de que o ser humano é um “animal político” é uma asserção ontológica, não mera observação sociológica: significa que as capacidades que definem o florescimento humano — linguagem, razão, juízo moral — só podem desenvolver-se plenamente dentro de uma comunidade estruturada.
⁵ Hansen, Polis, 108–127. A ágora funcionava não só como mercado, mas como o coração cívico da pólis — o espaço onde convergiam as atividades políticas, judiciais, religiosas e comerciais e onde o corpo de cidadãos exercia sua agência coletiva.
⁶ Vernant, The Origins of Greek Thought, 102–118. O compromisso ateniense com a isēgoria (igual direito à palavra) e a parrhēsia (liberdade de expressão) criou as condições para que a investigação filosófica florescesse — mas também para que a demagogia prevalecesse.
⁷ Hansen, Polis, 73–88. Os arranjos constitucionais de Esparta — a dupla realeza, a gerousia (conselho de anciãos), o eforato (colegiado de supervisores) e a apella (assembleia dos cidadãos) — representaram uma tentativa altamente estruturada de subordinar a autonomia individual à disciplina coletiva.
⁸ A tensão entre liberdade e ordem no governo eclesiástico é discutida em George R. Knight, A Search for Identity: The Development of Seventh-day Adventist Beliefs (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 2000), 182–189, no contexto da negociação permanente da Igreja Adventista entre suas origens carismáticas e seu desenvolvimento institucional.
⁹ Giovanni Reale, A History of Ancient Philosophy, Vol. 1: From the Origins to Socrates, trad. John R. Catan (Albany: State University of New York Press, 1987), 35–95. Reale oferece um tratamento sistemático da filosofia pré-socrática como a primeira tentativa sustentada de descobrir os princípios racionais subjacentes à estrutura da realidade.
¹⁰ Eric Voegelin, Order and History, Vol. 2: The World of the Polis (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1957), 165–240. Voegelin interpreta o despertar filosófico da Grécia antiga como uma “diferenciação” da consciência — uma irrupção do simbolismo “compacto” do mito para o simbolismo “diferenciado” da filosofia, no qual a estrutura da realidade se torna transparente à análise racional.
¹¹ Platão, Apologia de Sócrates 38a; ed. de referência: trad. inglesa de C. D. C. Reeve (Indianápolis: Hackett Publishing Company, 2002); tradução nossa da citação. A declaração de Sócrates de que a vida sem exame não vale a pena ser vivida é feita no contexto de seu discurso de defesa no julgamento — momento em que o compromisso filosófico com o autoconhecimento confronta a resistência da pólis à crítica moral.
¹² Voegelin, The World of the Polis, 5–13. Voegelin lê a execução de Sócrates como o conflito paradigmático entre o compromisso do filósofo com a verdade transcendente e o compromisso da pólis com sua própria ordem convencional — conflito que se repetiria, de várias formas, ao longo da história das comunidades proféticas e filosóficas.
¹³ Platão, República IV, 435b–444a; ed. de referência: trad. inglesa de G. M. A. Grube, rev. C. D. C. Reeve (Indianápolis: Hackett Publishing Company, 1992). A analogia entre a alma e a cidade é o princípio estrutural da República: a justiça na cidade só é possível quando há justiça na alma de seus cidadãos.
¹⁴ Platão, República V, 473c–d. A célebre passagem sobre o rei-filósofo: “Enquanto os filósofos não reinarem nas cidades, ou os que hoje se chamam reis e governantes não filosofarem de modo genuíno e adequado [...], não haverá trégua para os males das cidades” (tradução nossa a partir da versão inglesa de Grube/Reeve).
¹⁵ Eric Voegelin, Order and History, Vol. 3: Plato and Aristotle (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1957), 112–132. A leitura de Voegelin do rei-filósofo como figura profética — alguém que medeia entre a verdade transcendente e a ordem imanente da pólis — oferece um referencial para compreender a natureza da liderança profética nas comunidades religiosas.
¹⁶ Aristóteles, Política II.1–12, 1260b27–1274b28. O exame que Aristóteles faz das constituições existentes — entre elas as de Esparta, Creta e Cartago — reflete seu compromisso de fundamentar a teoria política na observação empírica, e não na especulação abstrata.
¹⁷ Aristóteles, Ética a Nicômaco I.2, 1094a18–1094b11; ed. de referência: Aristotle, Nicomachean Ethics, trad. Roger Crisp (Cambridge: Cambridge University Press, 2014). A identificação da eudaimonia (florescimento, felicidade) como o bem supremo ao qual toda atividade humana se orienta é a premissa fundante da ética aristotélica.
¹⁸ Aristóteles, Ética a Nicômaco VI.5, 1140a24–1140b8. A Phronesis distingue-se do conhecimento teórico (epistēmē) por sua orientação para a ação em circunstâncias particulares — distinção com implicações diretas para o tipo de sabedoria exigido na liderança institucional.
¹⁹ Seventh-day Adventist Church Manual, 19. ed. (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 2016), 26–30. A estrutura representativa de quatro níveis (igreja local, associação/missão, união, Associação Geral) foi concebida para distribuir a autoridade, garantir a prestação de contas e subordinar o interesse institucional ao propósito missionário.
²⁰ Howard A. Snyder, The Problem of Wineskins: Church Structure in a Technological Age (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1975), 17–19.
²¹ Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Light Bearers: A History of the Seventh-day Adventist Church, ed. rev. (Nampa, ID: Pacific Press Publishing Association, 2000), 457–475. Schwarz e Greenleaf documentam o crescimento da infraestrutura institucional adventista e o desafio recorrente de manter o foco missionário dentro de um aparato organizacional cada vez mais complexo.
²² Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 4, 396 (T4 396.1, ed. 2007, conforme EGW Writings); original em inglês: Testimonies for the Church, vol. 4, 396 (4T 396.1). Nota da tradução: o texto em inglês deste artigo citava uma frase atribuída a Testimonies, vol. 7, 246, que não pôde ser localizada nos escritos de Ellen G. White; substitui-se pela declaração verificável que começa com as mesmas palavras.
²³ Knight, A Search for Identity, 55–66. As conferências bíblicas dos primeiros adventistas modelaram uma forma de deliberação comunitária intelectualmente rigorosa e espiritualmente enraizada — prática que a igreja contemporânea faria bem em recuperar.
²⁴ Avery Dulles, Models of the Church, ed. ampl. (Nova York: Doubleday, 2002), 26–46. Dulles adverte que a dependência excessiva do modelo institucional de igreja — com ênfase em hierarquia, lei e preservação estrutural — pode eclipsar as demais dimensões essenciais da vida eclesial e reduzir a igreja a um aparato de automanutenção organizacional.
²⁵ Platão, República VI, 508e–509b. A Forma do Bem é descrita como “além do ser” (epekeina tēs ousias) — a fonte última da verdade e da realidade, que transcende todas as formas particulares de conhecimento.
²⁶ Aristóteles, Ética a Nicômaco VI.11, 1143a35–1143b14. Aristóteles reconhece que a sabedoria prática envolve uma espécie de percepção moral — uma apreensão intuitiva do curso de ação correto — que não pode ser plenamente reduzida a regras ou ao raciocínio dedutivo.
²⁷ O compromisso adventista com a Sola Scriptura como norma última de fé e prática, complementada pela orientação profética do Espírito de Profecia, está expresso nas Crenças Fundamentais n.º 1 (“As Escrituras Sagradas”) e n.º 18 (“O Dom de Profecia”). Ver Seventh-day Adventist Church Manual, 19. ed., 162–163, 172–173.
²⁸ Ellen G. White, Conselhos para a Igreja, 246 (CI 246.2, ed. 2007, conforme EGW Writings), que transcreve Atos dos Apóstolos, 9; original em inglês: The Acts of the Apostles (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1911), 9. Essa definição da igreja — organizada para o serviço, orientada para a missão — oferece o critério escatológico pelo qual todos os arranjos institucionais devem ser avaliados.





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